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História Marxista

Integração americana
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Estudo e Engajamento
Study end Latching

Jean Paulo Pereira de Menezes

RESUMO:
Este depoimento jamais fora publicado. Somente agora o resolvi fazê-lo tendo em vista a crise violenta do paradigma marxista nas universidades e consequentemente na formação de historiadores e demais áreas das ciências humanas, principalmente nos Estados brasileiros de São Paulo (USP, UNESP e FAFICA), Mato Grosso do Sul (UFMS, UEMS e UFGD) e ainda na capital da Província de Amambay no Paraguay (UTCD).
Palavras-chaves: Universidade – Intelectuais e Engajamento.

ABSTRACT:
This statement had never been publish. Only now I decided to do it, having sight about the violent crisis of the “paradigma marxista” in the universities and consequently in the historian’s formation and the others areas of the human sciences, mainly in the brazilian states of São Paulo (USP, UNESP and FAFICA), Mato Grosso do Sul (UFMS, UEMS and UFGD), and still in the Amambay’s Province capital in Paraguay (UTCD).

Keywords: University – Intellectuals – Latching.

Desta vez dissertarei aos camaradas militantes no campo historiográfico (estudantes e professores) e defensores da proposta marxista de análise da História humana.
Durante anos venho desenvolvendo um projeto de pesquisa acadêmica onde procuro analisar os fenômenos do capitalismo e os seus desdobramentos acerca das culturas, especificamente das culturas indígenas no Brasil contemporâneo. Durante os anos de faculdade, identifiquei a problemática indígena em relação à sociedade envolvente capitalista nacional e internacional, onde milhares de culturas foram exterminadas em nome do capital e dos interesses dos que este representava em terras ocidentais (América Portuguesa). Decidi então, dedicar-me a esta causa, digo, o combate ao capitalismo assassino e na defesa das culturas em processo de transfiguração no decorrer do processo histórico (não se restringindo apenas as sociedades indígenas).
Preocupando-me em dialogar com outras disciplinas como a Arqueologia, fui estudar na Universidade de São Paulo, no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, onde pude ampliar meu leque de mestres comprometidos com o estudo em ciências humanas, e ainda, na Universidade Estadual Paulista de Assis, cursando disciplinas como aluno especial no programa de mestrado durante anos. E, neste contexto pude observar grandes dificuldades acerca da questão do método de estudo e no trato com o centrismo academicista vigorante nas universidades em geral.
Desde o ano de 1998, procurei investir na busca desenfreada pelo conhecimento da historiografia brasileira, da antropologia, da cultura e sociedade através de disciplinas que cursei na Unesp de Assis. Participando ativamente de congressos, conferências e comunicações científicas, além de participar como ouvinte em várias aulas da graduação em História neste mesmo campus. Isso até o ano de 2005, onde desenvolvia uma série de leituras em busca do amadurecimento acadêmico e humano que possibilitasse um trabalho de pesquisa comprometido com a verdade e o combate da superfície ideologizada que permeia as relações sociais.
Durante todo este processo “histórico” da minha vida acadêmica, pude observar que a militância contra o capitalismo não é bem vinda nas universidades, entre os acadêmicos encastelados em seus guetos de pesquisa (salvo exceções)... Que a franqueza não é uma boa característica no meio academicista... Que a espontaneidade de vestimentas e comportamentos são reprovadas se não seguirem o viés da elite intelectual que comanda, de certa forma, o gueto do academicismo em determinadas universidades... Que ser você mesmo, pode vir a prejudicar os seus ideais, as suas propostas de pesquisas e a sua estadia na universidade composta pela elite burguesa que predomina principalmente nas universidades públicas que puder estar! Uma mentalidade reacionária que me parece temer, não por cautela aos iniciantes na carreira acadêmica, mas sim por ser portadora de uma mentalidade burguesa de existir, limitando-se a orientar apenas o que lhes convêm, e, que não seja muito polêmica a orientação possível, pois se revertida, o nome do orientador é quem está em jogo! Que vergonha.
De escolástico à socializador nossa proposta de pesquisa já foi tachada. Lamentável, pois enquanto esta elite intelectual reprova projetos deste viés, milhares de pessoas são transfiguradas em uma posição marginal na sociedade capitalista globalizada. Milhares de manifestações culturais são extintas, juntamente com seus elementos criadores, dando espaço à existência de alguns indivíduos que nem bem sabem o que são. Se são sujeitos ou cifras matemáticas, se são gente ou escravos de um sistema etnocêntrico que lhes impõe valores totalitários goela abaixo todos os instantes da existência na sociedade capitalista contemporânea.
Ser um intelectual militante aos moldes de Jean Paul Sartre, Eric Hobsbawm, entre outros, hoje, parece-me ser até mesmo motivo de chacota no gueto acadêmico. Pena... Lamentável, pois enquanto isso ocorre, dezenas de Kaiowá se suicidam em Dourados (MS), Kaingang e Terena (SP) sentem-se envergonhados de serem índios, centenas de Xavante e Bororo vivem em plena guerra civil em suas reservas (MT), proletários e camponeses são violentamente explorados e exterminados e, se tudo isso e muito mais não bastasse, o sistema fica conivente com fazendeiros, madeireiros, grileiros e posseiros que exterminam sem piedade o que ainda restam destes povos que neste território capitalizado tardiamente foram e inda tentam ser guerreiros, militantes em defesa da sua cultura e da sua libertação da hegemonia burguesa.
O marxismo, para analisar a História , parece-me que para a maioria da elite intelectual acadêmica, trata-se de um método ultrapassado e por esta parcela refutado também impiedosamente. Impossibilitando uma análise mais crítica do capitalismo selvagem (Florestan Fernandes), promovendo um desenvolvimento conservador das classes no Brasil.
O marxismo como método de análise do processo histórico é totalmente pertinente, pois, uma vez que as estruturas de exploração e ativação do capital são praticamente as mesmas e intactas com o modelo neoliberal da economia, ainda proporcionando a marginalidade social, cultural, política e econômica da maioria absoluta daqueles que são proprietários apenas da sua força de trabalho para subsistirem em detrimento daqueles que dominam os meios de produções e deles extraem a mais-valia absoluta e relativa nos dias atuais.
Em relação às sociedades indígenas a mesma problemática se aplica. Centenas de indígenas e campesinos são recrutados para a execução do trabalho miseravelmente remunerado nas fazendas produtoras de gêneros agrícolas ou criadoras de gado e ainda nos centros urbanos, onde a crise de identidade cultural é tão avassaladora como a do campo, colocando a classe trabalhadora não apenas em uma crise de ordem cultural, sendo também econômica (prioritariamente), social e política. A luta de classes, internamente, se agrava com a aquisição de conceitos culturais da sociedade do trabalho capitalista, com as ideologias religiosas e com as propagandas mercadológicas portadoras de um fetiche poderosíssimo.
Vamos, a título de exemplificação, lançar uma visão sintética sobre algumas comunidades indígenas (tendo em vista o Estado do Mato Grosso do Sul) das regiões Sudeste e Centro Oeste do Brasil.
Entre os elementos indígenas da Comunidade do Icatú no Interior do Estado de São Paulo, dezenas de sujeitos aderiram às religiões cristãs e as mercadorias produzidas industrialmente, proporcionando-lhes um despertar para o mundo do “progresso” capitalista. Mas também proporcionaram-lhes a despreocupação, na sua maior parcela em preservar a língua nativa, os valores espirituais dos rituais culturais como a dança da chuva, do cavalinho de pau, entre outras danças que são executadas na comunidade todos os anos em comemoração ao dia do Índio . O desejo de poder morar na cidade, a insuficiência econômica que os faz trabalharem para os fazendeiros vizinhos da reserva, ou ainda na cidade, os enquadram em um contexto capitalista existencial, onde a crise é inevitável, pois para saciar o fetiche das mercadorias produzidas é necessário possuir dinheiro e sem a venda da força de trabalho, salvo o salário mínimo pago pela Previdência Social, terão que assalariar-se como já assinalamos, a um preço irrisório, além de terem que competir com o explosivo exército de reserva existente nos centros urbanos, além de serem vitimados pelo etnocentrismo excludente. Se isso tudo, não for viabilizador de uma análise marxista da história indígena no Brasil, é minimamente irracional e ideologizador de uma doutrina econômica que deseja se cristalizar.
Na grande São Paulo, em Guarulhos, índios Pankararu, são habitantes de uma comunidade exposta as navalhas do capitalismo. Iludidos com a possibilidade de viverem melhor, migram do nordeste para a cidade dos sonhos (São Paulo) a procura de uma vida melhor que a do sertão brasileiro. Mas o que encontram é um espaço marginal, periférico no mundo do trabalho, compartilhando as mesmas chagas entre milhares de migrantes, de diversas partes do território, que são iludidos com o fetiche capitalista de existir. Na realidade, acabam todos por redundarem em mercadorias humanas, de onde se extraem mais-valia a todo vapor.
No centro-oeste do Brasil, no estado do Mato Grosso, na Reserva de São Marcos, os índios Xavante são bestializados pelo capital da mesma forma que em outras partes, respeitando as singularidades. O fetiche da mercadoria ideologizada com vigor pelo capital, provoca, como pode provocar em qualquer um que seja fornecedor de mão-de-obra para o capital, a ilusão de uma vida melhor nas cidades, provocando desdobramentos irreparáveis a prazos seculares. No caso em tela, a língua Xavante é preservada, mas o desejo de criarem o avestruz para terem o dinheiro produzido pelo não-índio é latente. A vontade de serem jogadores da seleção brasileira de futebol é identificável, o brilho nos olhos daqueles que são representantes das aldeias quando vão á cidade para poder “discutirem” os seus interesses é totalmente visível (atribuindo-lhes um status tribal) ... Quando estávamos visitando a Reserva São Marcos, no segundo semestre de 2004, representantes indígenas se direcionavam rumo a capital para participarem de uma reunião com o governador (em Cuiabá), onde requisitariam máquinas para o desenvolvimento da produção agrícola em São Marcos. Onde observamos a preocupação em ser produtores e se enquadrarem na ordem do dia empresarial capitalista predominante e invasor da cultura indígena. Lutas entre aldeias... Entre aquelas que são mais ou menos ligadas as forças políticas locais e regionais, disputas implícitas entre elementos indígenas que são funcionários da FUNAI na cidade de Barra dos Garça e aqueles que não o são. Desconfianças e até mesmo um clima de temor pelo que podem informar ao de fora como éramos naquele contexto de verdadeira guerra tribal. Como pode ser facilmente identificado, vários interesses antagônicos se fazem presentes nas sociedades indígenas brasileiras, várias classes distintas vão sendo engendradas pelo capitalismo no interior da organização social, provocando assim o desmantelamento, proporcionando o discurso individualista, o fetiche ideológico das mercadorias que não serão adquiridas sem a veda do trabalho para o representante do capitalismo contemporâneo.
Mais uma vez, assim sendo, é impossível descartar o método de análise marxista para entender estes fenômenos e seus desdobramentos históricos em organizações indígenas, onde a cultura é mutada (de mutação) com os valores da sociedade envolvente (capitalista), pois a realidade está completamente vinculada ao sistema econômico capitalista de produção, as suas relações de produção e as suas ideologias falseadoras da realidade imposta.
No Estado do Mato Grosso do Sul, próximo a Dourados, as comunidades indígenas passam pela mesma problemática capital. Um conjunto de dezenas de Guarani praticam, há décadas, o suicídio como reflexo da decepção e do desespero ao não se identificarem mais como índio nem como não índios. Perdem as suas terras e são transplantados para outras áreas indígenas, até mesmo para terra de seus antigos e históricos inimigos, para “cederem” o seu espaço geográfico-cultural aos fazendeiros que com o apoio direto e indireto das ditas autoridades governamentais, invadem o seu espaço vital para promoverem o desenvolvimento de seus capitais, e ironicamente, utilizando-se do trabalho indígena (quando não o escravo), que como já dissemos, miseravelmente remunerados pelos donos dos meios de produção (fazendeiros, usineiros, arrendatários de terras, etc.).
Nesse contexto histórico contemporâneo, e aqui me refiro a estabelecida História Contemporânea, delicadamente balizada entre 1789 até os dias atuais, onde se desenvolveram os meios de produção capitalista que conhecemos hoje, e ordenou-se uma nova relação de produção a partir, principalmente, do século XIX, com a revolução da indústria, com o advento do sistema fabril, com a explosão demografia e o crescimento do capital, com o desenvolvimento e expansão do capitalismo para as áreas periféricas do globo (entendidas assim economicamente), com a exploração da mão-de-obra nas periferias do capitalismo, com o desenvolvimento tardio de uma economia capitalista nas antigas colônias do século XV e XVI, com o desenvolvimento conservador dos países periféricos do capitalismo global, com a continuidade da extração da mais-valia, com a preservação do latifúndio brasileiro, da concentração de renda, das ideologias desenvolvidas e maciçamente implantadas nas mentalidades da população, criando o imaginário social de que todos podem ser o que desejarem nesta sociedade capitalista, onde o neoliberalismo se diz capaz de gerar desenvolvimento, onde a globalização promove a interligação cultural entre os indivíduos, que todos são o que são de acordo com o esforço empregado no seu desenvolvimento, que a cultura é algo mutável por natureza e que os valores são naturalmente voláteis... Seria no mínimo uma grande piada de mau gosto ignorar o marxismo. E, para o meio acadêmico, refutar o método de análise da História por viés marxista, seria minimamente uma irresponsabilidade intelectual, sendo incapaz de lançar mão de uma teoria que até os dias atuais é tida até mesmo pelos mais capitalistas neoliberais (como a economista Mirian Leitão), como a que melhor entendeu a dinâmica da História e do próprio capital. O refutar da análise marxista no meio acadêmico é empobrecedor do conhecimento humano, uma vez que não se apresenta argumentação plausível para tal refutação. E, além de limitações, por parte do historiador no trato com as fontes, promove a incapacidade de entender determinados fenômenos históricos e seus desdobramentos em um contexto de extinção étnica e de extermínio de um povo que enquanto vive, são marcados com ilusões que não irão promovê-los a uma materialidade econômica digna como se prega na sociedade do trabalho, menos ainda a um céu ideologizado por religiões desmanteladoras de suas identidades culturais que os fragilizam ainda mais para a grande fagocitose do capitalismo.
Concluindo... Negar a possibilidade de análise marxista da História indígena ou de outras organizações sociais, que, direta ou indiretamente se fusionaram com a organização capitalista, pode incapacitar de forma a fazer insuficiente qualquer análise de pesquisa comprometida com o entendimento e explanação dos fenômenos humanos. Ser marxista e utilizar o viés marxista de análise da história são coisas possivelmente distintas para aqueles que estão longe de serem sectários de um programa ideologizado. Mas negar o marxismo no mundo acadêmico é extremamente preocupante, pois ai sim o sectarismo pode estar com uma roupagem alinhada com interesses alheios aos que devem nortear a pesquisa científica em um dado universo intelectual hegemoneizado pela mentalidade burguesa.
 
 

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